Tudo é político. Até fingir que não.

A política não começa na urna, não termina na apuração e certamente não desaparece porque alguém decidiu que “não gosta de política”.
Por Guilherme Araújo

Existe uma fantasia confortável sobre a vida política brasileira. A de que política acontece em Brasília, dentro de gabinetes, durante campanhas eleitorais, enquanto pessoas de terno discutem assuntos que aparentemente não têm nada a ver com quem paga aluguel, pega ônibus às seis da manhã ou tenta terminar a faculdade.

De vez em quando, essas pessoas são chamadas a votar. Escolhem alguém, apertam alguns números e voltam para suas vidas, até se passarem 4 anos, quando aparentemente a política volta a existir, mas é uma pena que o mundo real não funcione assim.

A política está no preço da comida, no salário, no aluguel, no transporte, na universidade, na saúde, na cultura, nas condições de trabalho e na distribuição de oportunidades. Está naquilo que o Estado decide financiar, proteger, regulamentar ou ignorar. Está nos direitos que conquistamos e nos direitos que ainda precisamos defender.

Está também em coisas que parecem banais, no corpo considerado aceitável, na roupa considerada apropriada, na família considerada legítima, na pessoa que aparece na publicidade como protagonista e naquela que aparece como ameaça.

A política não precisa ser convidada para entrar na sua vida, ela já está lá.

“Não gosto de política” não é neutralidade

Ninguém é obrigado a gostar de política, mas existe uma diferença enorme entre não gostar de discutir política e acreditar que é possível viver sem ser afetado por ela.

Quando alguém diz que “todo político é igual”, é curioso como justamente quando as decisões sobre a nossa vida exigem atenção, decide-se entregar o assunto para os outros. Quando alguém diz que não é de esquerda nem de direita porque “não gosta de extremismo”, também vale perguntar quais propostas, exatamente, estão sendo colocadas no mesmo saco.

Defender direitos sociais e defender sua retirada não são posições idênticas apenas porque ambas podem ser chamadas de “opiniões”. Defender a liberdade religiosa e defender que uma determinada religião dite as regras de toda a sociedade também não são a mesma coisa.

Neutralidade não transforma posições políticas diferentes em versões igualmente inofensivas de bom senso, às vezes, ela apenas oferece um nome elegante para a recusa de escolher quais valores consideramos inegociáveis.

Alguém sempre escolhe

Enquanto uma parte da população decide que política é assunto chato demais, alguém está decidindo o que fazer com o dinheiro público, quais direitos ampliar ou restringir, quem terá acesso a determinadas políticas e quais grupos serão colocados no centro ou na margem das decisões.

A desigualdade não caiu do céu junto com a previsão do tempo. Ela é produzida e reproduzida por escolhas econômicas, políticas e sociais. Algumas distribuem oportunidades; outras concentram renda, poder e acesso.

É por isso que discutir igualdade não é “politizar tudo”. A desigualdade já é política. Só parece menos política para quem consegue atravessá-la sem ser atingido, e é justamente aí que a conversa sobre cidadania precisa sair do calendário eleitoral.

Fé é direito. Poder religioso sobre o Estado é outra coisa

Estado laico não significa Estado ateu. Uma pessoa religiosa tem o mesmo direito de participar da política que qualquer outra. Pode votar de acordo com sua consciência, ser candidata, defender suas ideias, organizar movimentos e ocupar espaços públicos.

A liberdade religiosa protege justamente isso, mas ela não transforma uma doutrina particular em autoridade automática sobre quem não a segue.

Isso não é perseguição à fé, é uma proteção contra o monopólio religioso do Estado.

O cristão não precisa deixar sua fé em casa para entrar na política. O umbandista também não. O muçulmano, o judeu, o espírita, o ateu e o agnóstico tampouco. O que todos precisam aceitar é que o Estado pertence a todos. Não a uma igreja, não a uma denominação e não a uma interpretação específica de Deus. A todos.

O problema começa quando uma crença particular deixa de ser apresentada como crença e passa a ser tratada como lei natural. Quando “minha religião entende assim” vira “a sociedade inteira precisa viver assim”.

Quando a moral religiosa passa a determinar quais famílias são legítimas, quais corpos podem existir, quais comportamentos devem ser proibidos, quais livros podem ser lidos, quais discussões podem acontecer na escola e quais direitos determinadas pessoas podem ter, o debate deixa de ser apenas sobre fé. Passa a ser sobre poder.

O fundamentalismo político-religioso costuma transformar questões complexas em guerras morais simples. Existe o cidadão de bem e existe o inimigo, existe a família correta e existe a família que ameaça a sociedade, existe quem merece proteção e existe quem precisa ser controlado.

Quando minorias viram projeto eleitoral

Mulheres trans são reduzidas a uma discussão sobre banheiros. Pessoas negras são transformadas em argumento contra políticas de inclusão. Pessoas LGBTQIA+ aparecem como ameaça à infância. Mulheres têm sua autonomia corporal transformada em pauta moral. Pessoas pobres são tratadas como problema individual, e não como parte de uma estrutura de desigualdade. Imigrantes viram bode expiatório. Artistas, professores, universidades e movimentos sociais são apresentados como inimigos culturais.

O mecanismo é antigo, quando um problema estrutural é difícil de resolver, encontra-se um grupo relativamente vulnerável para ocupar o lugar de culpado. É muito mais fácil produzir indignação contra uma minoria do que explicar por que uma sociedade continua desigual. Mais fácil criar pânico moral do que discutir distribuição de renda. É mais fácil discutir quem pode usar determinado banheiro do que discutir por que tanta gente não consegue pagar o próprio aluguel. Mais fácil transformar a universidade pública em inimiga do que discutir o acesso desigual à educação.

A questão, portanto, não é apenas quais temas entram no debate. É por que alguns deles recebem tanta atenção e quem se beneficia quando ocupam todo o espaço.

A extrema direita entendeu que, antes do voto, existe o imaginário

A disputa política começa muito antes da urna. Começa quando determinada ideia passa a parecer normal, quando um preconceito ganha embalagem de opinião, quando uma teoria conspiratória vira entretenimento, quando a violência é apresentada como solução ou quando a nostalgia de um passado idealizado é usada para convencer que determinados direitos foram longe demais.

A política contemporânea também é uma disputa por imaginário, e a internet é um de seus principais campos de batalha. O discurso político pode chegar como meme, vídeo curto, podcast, humor, conteúdo sobre masculinidade, estética, religião ou “bons costumes”. Nem sempre vem acompanhado de bandeira partidária ou discurso de palanque. Às vezes vem acompanhado de uma música viral.

É justamente por isso que cultura e política não podem ser separadas por uma parede imaginária. Quem disputa símbolos, desejos, medos e referências também disputa poder.

Talvez seja hora de parar de tratar a apatia como virtude

Existe algo profundamente confortável em dizer “não vou votar em ninguém”. Às vezes é uma manifestação legítima de descontentamento. Outras vezes é simplesmente desistência, mas a urna não pergunta se você está animado, ela pergunta o que você fará com o poder que tem naquele momento.

No primeiro turno das eleições de 2026, 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas, o equivalente a 21,08% do eleitorado. Foi a maior abstenção registrada em um primeiro turno de eleições gerais desde 1998.

Quem não votou no primeiro turno ainda pode participar do segundo, desde que esteja com o título regular. Então, antes de 25 de outubro, talvez valha uma pergunta menos confortável do que “qual candidato combina comigo?”.

Pense na vizinha que depende de uma política de transferência de renda. No sobrinho gay que ainda precisa aprender a existir em um mundo que insiste em dizer que ele deveria se esconder. Na colega negra que lutou para chegar à universidade. Na mulher que precisa de autonomia sobre a própria vida. No trabalhador que depende de direitos que parecem garantidos até alguém decidir que não precisam mais ser. Na pessoa religiosa que quer praticar sua fé sem que outra religião determine sua vida.

Pense também em você, porque política não é caridade, é interesse coletivo.

A decisão tomada na urna não termina em quem votou. Ela alcança quem não pôde votar, quem não quis votar, quem ainda nem nasceu e quem terá de viver com as consequências quando a campanha acabar.

No fim, essa é a parte da política que a falsa neutralidade tenta esconder: nossas escolhas nunca ficam apenas conosco. Tudo é político. Até decidir não olhar.

ENTRE A CENA
Por Guilherme Araújo
Conceito, curadoria, pesquisa, redação, edição, direção editorial e visual, produção e publicação: Guilherme Araújo

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