Quando a moda vira herança: Corpo, matéria e ancestralidade em “Realeza das Raízes Atemporais”

Filipe Reis e Joatan Sant levaram à 7ª edição do Brasília Trends Fashion Week uma coleção em que ancestralidade, corpo e matéria se encontram em uma moda tão artesanal quanto monumental.

Tem desfile que apresenta roupa, tem desfile que apresenta uma ideia, e tem aquele momento específico em que você olha para a passarela e pensa que alguém resolveu construir uma “criatura” inteira em corda, palha, pigmento e cabelo natural e, sinceramente, ainda bem que resolveu.

Foi mais ou menos assim que Realeza das Raízes Atemporais, de Filipe Reis e Joatan Sant, chegou à 7ª edição do Brasília Trends Fashion Week.

A coleção parece partir de uma pergunta simples e enorme ao mesmo tempo: “O que acontece quando a ancestralidade deixa de ser referência decorativa e passa a ser matéria de criação?”. A resposta veio em fibras, tramas, palhas, cordas, pinturas corporais e estruturas que fizeram os modelos ocuparem a passarela como figuras quase escultóricas.

E aqui está uma das coisas mais interessantes da coleção. Ela não parece interessada em reproduzir literalmente um passado. Existe uma pesquisa visual que olha para referências afro-indígenas e as reorganiza em uma linguagem contemporânea, exagerada e, em alguns momentos, quase fantástica. A roupa cresce para fora do corpo, cria coroas, asas, armaduras, franjas e volumes que transformam completamente a silhueta. Em determinados looks, é difícil dizer onde termina o vestuário e começa a escultura.

É aí que o conceito de “Fluxos Invisíveis”, tema da edição deste ano do BTFW, encontra a coleção de maneira especialmente interessante. Há fluxos que não aparecem, mas estão presentes o tempo inteiro. Memória, território, identidade, ancestralidade... Na coleção, eles ganham forma.

Todos os modelos atravessaram a passarela descalços, uma escolha que estabelece uma relação visual imediata entre corpo e chão. Enquanto as roupas se expandem, sobem, arrastam, balançam e criam novas arquiteturas ao redor dos corpos, os pés permanecem em contato com a passarela. É uma imagem simples, mas difícil de ignorar.

A coleção também entende que beleza não é acabamento, ela é parte da narrativa. Os rostos recebem pinturas que parecem continuar os desenhos e ritmos das roupas. Vermelhos intensos atravessam olhos e maçãs do rosto, linhas brancas e douradas aparecem sobre a pele, e os cabelos naturais assumem volumes e estruturas que passam a conversar diretamente com os acessórios.

Visualmente, é impossível não pensar em uma tradição de imagens que entende o corpo negro como espaço de invenção, poder e transformação. Há ecos de uma estética afrofuturista na maneira como o corpo é ampliado e reconstruído, mas também existe algo muito mais terreno nas matérias escolhidas. A palha, a corda, a fibra e o trançado carregam uma aparência quase bruta, enquanto a escala das peças as empurra para o campo da fantasia e da alta moda. E é justamente esse atrito que deixa a coleção interessante.

Os tons naturais dominam boa parte dos looks, mas o vermelho entra como uma espécie de ruptura. Ele aparece em roupas inteiras, pinturas, acessórios e estruturas, criando alguns dos momentos mais dramáticos da coleção. Depois, preto e verde aprofundam a paleta e deslocam novamente a narrativa, mostrando que Realeza das Raízes Atemporais não está presa a uma única imagem de ancestralidade.

E talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores forças do trabalho de Filipe Reis e Joatan Sant. A coleção não tenta tornar suas referências palatáveis, minimalistas ou discretas. Ela deixa a matéria aparecer. Deixa a fibra ser fibra, deixa a corda ocupar espaço, deixa o cabelo ser volumoso e deixa o corpo negro ser central.

É uma coleção que entende que exagero também pode ser memória.

No meio de uma semana de moda, onde tantas vezes a novidade vem disfarçada de tendência, Realeza das Raízes Atemporais escolhe outro caminho. Volta para matérias antigas para construir imagens que parecem novas, e isso faz diferença, especialmente em Brasília.

A cidade, que tantas vezes aparece no imaginário da moda através de sua arquitetura, de suas linhas modernistas e de sua paisagem monumental, também produz outras visualidades, outras histórias, outros corpos e outras maneiras de entender o que é contemporâneo.

Filipe Reis e Joatan Sant colocam tudo isso na passarela sem transformar a ancestralidade em peça de museu. Pelo contrário, fazem dela uma linguagem viva, capaz de ser estranha, exuberante, bonita, desconfortável, teatral e absolutamente MODA.

Porque sim, tem drama, tem estrutura, tem beleza, tem conceito e teve público chorando e aplaudindo de pé.

No fim, quando os dois criadores atravessam a passarela, a coleção volta para suas origens. Depois de todas aquelas estruturas, personas e formas monumentais, aparecem os dois homens responsáveis por transformar matéria em imagem.

E talvez seja essa a imagem que melhor resume Realeza das Raízes Atemporais: não uma tentativa de reproduzir o que veio antes, mas de descobrir o que uma raiz pode virar quando encontra espaço para crescer em outra direção.

Filipe Reis · Joatan Sant · Brasília Trends Fashion Week

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